quinta-feira, 5 de julho de 2012


Antigamente eu afirmava, como dizia Tom Jobim: "eu não moro no Rio, eu namoro o Rio".

Hoje eu moro no Rio e passo maior parte do meu tempo livre em São Paulo do que aqui. Por quê?

Porque Sampa é, como diria Drummond, aquela pedra no meio do caminho - que atrapalha nossos planos e confunde nossas certezas. Nos tira do nosso rumo. Ou, ainda, aquela pedrinha bonita que a gente pegou na estrada da nossa vida pra guardar de lembrança e, como não cabia na mala, enfiou no sapato pra não perder. E, apesar de atrapalhar a caminhada, não queremos jogar fora, porque nos traz boas lembranças.

Demorei tanto tempo pra sair de Santos, a cidade de Vicente de Carvalho e Martins Fontes, que antes pretendendo ir direto para a terra do samba, da bossa e do funk, acabei tropeçando pelo caminho e me perdendo em São Paulo, me embrenhando no forró pé-de-serra de Pinheiros, embalada pelas melodias dos cancioneiros nordestinos e pelos braços dos forrozeiros, que me arrebataram como uma águia e fizeram muitas coisas acontecerem no meu coração.

Mas agora é chegada a hora de, mais uma vez, deixar para trás certas certezas, porque o futuro pode até esperar, mas o presente já se vai e eu não quero perdê-lo outra vez.

Passar a vida num lugar sonhando estar em outro? Não é isso o que quero fazer para o resto da minha vida.

Quero, sim, conhecer o mundo inteiro, mas sem jamais me esquecer da frase que li uma vez na camiseta de um viajante: "o melhor lugar do mundo é onde a gente está".

Enquanto estive em São Paulo, cidade de que nunca um dia pensei gostar e muito menos morar, sentia saudade de Santos. Quando me acostumei e realmente comecei a gostar de São Paulo, o Rio literalmente me convocou a vir para cá - e eu já quase não queria mais vir. Agora que moro aqui, sinto saudade de Sampa. Mas até quando será que vou ficar aqui? E quando outra terra, seja Vitória, BH, Bahia ou ainda mais longe, também me convocar? Sim, irei, mas não quero deixar o Rio com a sensação de que não o aproveitei o suficiente por não estar 100% presente. Não quero me acostumar com o Rio só quando já estiver chegando perto da hora de ir embora. Não quero mais ficar voltando atrás nem fazer contagem regressiva para tudo, como se a felicidade estivesse sempre um passo à frente ou no passado, e nunca aqui comigo, onde estou.

Um ano já se foi desde que cheguei, e ainda não sinto que vivi essa cidade em todo o seu potencial. Não encontrei muitos dos amigos cariocas que conheci pelas minhas andanças por esse país, inclusive alguns que me ajudaram a chegar até aqui. Não aprendi a dançar gafieira. Não fiz nenhuma trilha na floresta da Tijuca. Tudo porque o trabalho e o estudo tomam todo meu tempo, e os fins de semana são integralmente destinados a viagens a Santos e Sampa.

Por isso, a partir de agora, renego minha saudade de São Paulo - e também de Santos, que eu antes já tinha superado mas de vez em quando ainda volta -, de toda a família que me espera, de todos os amigos que cultivei por lá, de todos os amores, todas as lembranças; sem esquecer nunca as amizades e os aprendizados - renego apenas a saudade, sentimento que nos prende ao que passou e melancoliza nosso dia-a-dia, impedindo-nos de enxergar e aproveitar oportunidades de novas experiências. A partir de agora, eu quero Rio de Janeiro em primeiro lugar na minha agenda.

O forró continua na minha vida, os amores, os amigos... para sempre - apenas não tão fisicamente. Não geograficamente. Não espacial-temporalmente. Não com tanta freqüência. A única coisa que continua em mim é o aqui e o agora.

Rio de Janeiro, estou pronta afinal para firmar contigo aquele compromisso prometido pela frase de Jobim e me aconchegar de uma vez em seus braços, que me esperaram abertos durante todo esse tempo.

E que venha o samba!

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