terça-feira, 19 de abril de 2011

Encaixe Perfeito

De repente ela o viu, como um ponto fluorescente num fundo escuro, do outro lado da pista.

Depois de várias semanas de desencontros, lá estavam eles, no mesmo forró.

Indecisa sobre como devia cumprimentá-lo, ela decidiu por fazer imediatamente algo que, independente das conseqüências, não poderia ficar para depois. Atravessou o salão e foi-se chegando de mansinho, deixando-se ver e ser vista, olhos nos olhos através das várias camadas de casais chamegantes em rodopiante movimento; parou à frente dele com o rosto bem perto do seu, um sorriso contido, um olhar firme e discretamente desafiador e, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, perguntou:

- Vamos dançar?

Ao que um sorriso iluminado e uma aproximação gestual quase que magnética responderam afirmativamente, à guisa de palavras.

Deram-se as mãos e encaminharam-se para o meio da pista, ambos provavelmente perguntando-se se o beijo do reencontro ia acontecer ou não; mas logo esqueceram essa questão, pois num fechar (sem abrir) de olhos os dois já estavam abraçados, os corpos colados balançando ao som de um baião chorado, não muito lento nem muito rápido...

E dançaram como nunca antes haviam dançado.


Os dois corpos pareciam um só deslizando pelo salão, girando, pulsando, contraindo-se e esticando-se, subindo e descendo no espaço como um pêndulo, separando-se e juntando-se novamente, acelerando e freando, marcando ora o tempo, ora o ritmo, ora o contratempo, traduzindo o som da música em tato, em sensação, em movimento, em imagem, em ação e em sentimento.

Os joelhos estavam entrelaçados, o peito colado, os braços de um envolvendo o corpo do outro, o direito dele pela cintura dela e o esquerdo dela pelos ombros dele, enquanto os outros dois braços, conectados pelas palmas das mãos e pelas pontas dos dedos, brincavam no ar e conduziam giros e caminhadas. As escápulas desenhavam "oitos" deitados no ar, os quadris encaixavam amortecendo os breques e as coxas em contato serviam de apoio recíproco.

E cada ação dele resultava numa reação dela, na mesma proporção: a resposta à condução era praticamente intuitiva, os movimentos eram como que telepaticamente sincronizados, e a cada passo as pernas moviam-se com a mesma amplitude e velocidade, como se estivessem amarradas umas nas outras por um inexplicável magnetismo, e cada troca de peso ou torção de tronco ou de quadril dele refletia nela, como se um fosse o espelho do outro, ou como se aquilo fosse automático, como se o corpo dela estivesse programado para fazê-lo sem pensar; e de fato, quanto menos ela pensava, mais a dança fluía. A resposta era imediata, a conexão era total e a sintonia, absoluta. Eles vibravam na mesma freqüência.

Mas nada ali, de certa forma, era realmente uma ação dele nem tampouco uma ação dela. Era como se a música falasse através deles, e eles apenas traduzissem a mensagem com o corpo. Era como se o casal de dançarinos na verdade não estivesse realmente ali, somente a dança. Eles eram a dança.

E era como se cada um dos dois, ao sentir a batida da música nos ouvidos e a pulsação do parceiro na pele, e ao parar de pensar e deixar a dança fluir, entrasse em profundo estado de meditação, em que nada é realmente feito, apenas deixado acontecer.

Os dois corpos juntos funcionavam como duas engrenagens de relógio antigo, encaixavam-se perfeitamente tal qual duas colheres de faqueiro de prata, assim como quando fora da pista de dança (e como separar o que é dança do que não é?), dentro de outras quatro paredes eles se abraçavam, se encaixavam, se enroscavam, se rolavam, se amavam...

E as têmporas estavam encostadas, os narizes assoprando de leve os ouvidos, e os olhos fechados e os lábios sorrindo.

Era o retrato do êxtase.


Em dado momento um giro solto aconteceu, um contratempo repicou nos quatro pés, o corpo dela girou 360° em sentido anti-horário, o lado esquerdo do corpo dele a acolheu com o braço envolvendo-a pela cintura, o braço direito dela o abraçou por cima dos ombros e, ao juntarem-se os corpos, os quatro braços fecharam o abraço sem mais se separar. Os pés continuaram marcando o tempo, num abrir e fechar horizontal de quadris que funcionavam como se fossem a principal articulação de um mesmo corpo, enquanto a mão esquerda da moça deslizava discretamente para a nuca do parceiro, cuja mão direita tocou o outro braço pendurado em seu ombro, de uma forma tão cândida que parecia dizer "pode ficar aí, eu deixo. Pra falar a verdade, até gosto". E começou a acariciá-lo com contida sofreguidão, ao que a mão na nuca dele retribuiu na mesma medida.

Nesse exato momento foi como se o tempo parasse. A dança ficou mais lenta, os passos mais curtos, o balanço mais discreto; os rostos já colados de lado começaram a virar um em direção ao outro, como se as bocas fossem pólos opostos de dois ímãs; sobrancelhas suadas acariciaram as têmporas, narizes e testas foram se encontrando, os lábios ficaram a milímetros de distância, os ombros contraíram-se como que querendo intensificar o contato dos corpos, respirações ficaram mais lentas, os corações latejavam de expectativa, e até os olhos, por alguns segundos, ousaram entreabrir-se e encarar-se por entre as pálpebras semicerradas, como que para checar a veracidade daquele momento.

Foi quando um pensamento dela se fez voz.

- Eu amo você...

Após uma pausa dramática (na conversa e na dança), ele perguntou:

- O que você disse?

Ao que ela, sem titubear, respondeu:

- ...Eu amo dançar com você.

2 comentários:

Gil Sampaio disse...

Encantado com a maneira que vocês escrevem. Convido vocês para visitar meu Blog, aparece segue lá.

Interessante o interesse da Carioca, Gente Feliz... é o mesmo do meu.

beijos e abraços

Corine disse...

Nossa, to com os olhos cheios de lágrimas! Quase dancei com vocês... isso é pura poesia tirada da vida real, de sentimento real! Ai que lindo!!! Parabéns prima! Amo ler você! Beijos