sábado, 10 de abril de 2010

ressurgindo das cinzas

pouco mais de um ano depois, cá estou eu para atualizar esse blog.


ainda me considero caiçara, apesar de estar morando - e faço questão de escrever isso no gerúndio, porque essa cidade não é e nunca será minha casa - na Selva de Pedra, aka São Paulo.

é, depois de 10 meses subindo e descendo respectiva e contraditoriamente ao inferno e ao paraíso todos os dias da semana, finalmente tomei coragem e resolvi me mudar. é legal, porque nos fins de semana tem muita coisa pra fazer. nos dias de semana depois das 8 horas de ócio não-criativo no trampo também. ao menos eu não fico tão entediada nem passo 5 horas por dia num ônibus fretado tentando dormir o que não dormia em casa.

é, mais de um ano estou no mesmo emprego, coisa que achei que seria muito difícil de acontecer.
mas depois que me mudei para a única cidade (além de cubatão) onde eu já declarei em altos brados que J-A-M-A-I-S moraria, não duvido de mais nada.

o Rio de Janeiro continua sendo um sonho distante. distante, porém, apenas geograficamente, porque depois que conheci o CouchSurfing nenhum lugar é longe mais. e depois que voei de avião pela primeira vez (para Vitória-ES, a fim de passar o carnaval em Itaúnas) calculo a distância dos lugares pelo preço das passagens, já que o tempo que demoro a chegar em qualquer lugar de avião jamais será tão grande assim, considerando o tempo que estou acostumada a ficar sentada na frente de um computador ou de pé pendurada num ônibus.

aliás, uma curiosidade: quando eu morava em Santos, que pra mim é a melhor cidade do mundo para se viver, tinha calos nas mãos de tanto andar de bicicleta (aquele veículo que não tem vez em são paulo, assim como os pedestres). depois que fiquei um bom tempo sem pedalar, os calos sumiram. mas agora, depois de uns 4 meses morando em são paulo, eles voltaram, exatamente no mesmo lugar - apesar de eu não andar de bicicleta at all. explicação ? as curvas sinuosas do ônibus lotado que eu pego todos os dias que me obrigam a me agarrar às barras como se estivesse caindo de um precipício. às vezes não tem nem barra pra segurar, de tanta gente, e eu tenho que me segurar naquela que fica quase no teto. na ponta dos pés, óbvio. algo me diz que se hoje eu prestasse novamente o concurso dos correios passaria no teste físico da barra, já que ela ultimamente tem substituído melancolicamente o guidão daquele veículo que trafega tão ou mais rápido que a velocidade média dos carros em são paulo e que tanta endorfina libera no nosso corpo quando o utilizamos.

a república que eu arranjei pra morar - através do divino CouchSurfing, diga-se - é uma maravilha. na verdade não é uma república, não como eu imaginava que repúblicas de estudantes fossem, ou como eu já vi as que a minha irmã morou na época da faculdade. aqui é tão limpinho, tão tranqüilo, tão organizado, tão agradável... claro que só é assim porque minhas roomies são extremamente caprichosas, e a convivência com elas é ótima porque elas são tão doces e easy-going como só uma pessoa tão sortuda como eu seria capaz de encontrar :)

meu quarto é a coisa mais linda de meo deos. tem uma bicama, uma escrivaninha com vários armários, prateleiras e gaveteiros, um mural metálico na parede onde eu colo as tags dos meetings do CS e prendo com ímãs os bilhetinhos que meus guests e roomies eventualmente me deixam e um baita armário com mais espaço do que minhas roupas podem ocupar. trouxe vários bibelôs de gatinhos e bichinhos de pelúcia pra suprir a falta dos meus gatos, mas é claro que eu trouxe só o que era estritamente necessário da casa dos meus pais, ou seja, só as roupas que me servem, livros que ainda não li e cadernos que ainda têm páginas em branco para serem usadas, já que não quero herdar o impulso acumulador de tralhas-que-um-dia-podem-servir-para-alguma-coisa da minha mãe. claro que sou uma pessoa extremamente nostálgica e saudosista e guardo todos os bilhetinhos, cartas, passagens, desenhos, fotos, presentes e outras infinidades de coisas que me trazem lembranças, mas tudo isso ficou lá em santos, devidamente catalogado e estocado numa caixa em cima da minha estante de livros. nada carrego comigo para não fazer peso, mas quando volto ao lar - e santos sempre será meu verdadeiro lar - tenho a oportunidade de relembrar o passado desde a infância e o tanto que mudei e aprendi no decorrer desses quase 22 anos.

mas voltando à república: moro no Butantã, zona sudoeste de SP, a 40min de ônibus do trabalho (e os paulistanos juram que isso é 'perto') no 15° andar de um condomínio ao lado da Cidade Universitária e, portanto, repleto de repúblicas de estudantes. o mundo lá fora é uma tristeza, já que se trata de uma cidade em que não se vê o horizonte e o céu é sempre cinza, mas minha casa é tipo um oásis. pensei que gastar o dobro do que eu gastava com fretado só para ter um lugar fixo para dormir e tomar banho sem ter que carregar a casa nas costas que nem caramujo talvez não valesse muito a pena, mas é MUITO bom. quem me conhece sabe das crises de ódios mortais que eu tinha por causa do excesso de convivência com a minha mãe - apesar de amá-la mais do que tudo - e há quanto tempo eu desejava ter um lugar só meu, longe dos pais, onde os gatos - apesar de eu amá-los mais do que tudo - não empestiassem de dejetos e pêlos, onde eu pudesse levar quem quisesse, onde as minhas coisas permanecessem no devido lugar sem ninguém escondê-las ou jogá-las fora inadvertidamente, onde ninguém tomasse o último restinho de coca-cola que eu guardei para o café-da-manhã. claro que faz falta o ronronar dos gatinhos na hora de dormir, a companhia da minha mãe no café-da-manhã, a infra-estrutura de sempre ter em algum lugar da casa TUDO o que eu possa eventualmente precisar - desde alicates de cutícula, cosméticos, ferramentas, utensílios de cozinha e agulhas de costura até os temperos mais esdrúnxulos e os medicamentos mais versáteis - mas só o fato de não ter onde perder minhas coisas no meio dos rios de tralhas e papeladas que ocupam a superfície de 99% de chão e móveis e poder receber visitas sem ter que sair correndo pra limpar o banheiro e morrer de vergonha do cheiro que os gatos deixam na casa é muito bom.

hoje é um dia tranqüilo, sábado friorento e milagrosamente com todas as moradoras em casa, coisa raríssima. uma no computador escrevendo no blog e escutando Legião, outra no videogame (sim, agora temos um megadrive) com o namorado e outra no quarto provavelmente se maquiando ou estudando. me lembra o clima de quando eu era criança e passava um sábado qualquer em casa com minha irmã e as amigas dela, que ficavam horas conversando, ouvindo música e se arrumando pra sair. o cheiro de pasta de dente no banheiro, os cabelos molhados respingando por aí, o espelho embaçado. eu torcia pra elas não saírem nunca e continuarem me fazendo companhia. sinto-me nesse ambiente novamente. hoje o dia tá propício pra ficar em casa e quando eu fico em casa o tempo passa muito rápido - sinal que é bom ficar aqui.

mas como NADA nesse mundo é perfeito, é claro que essa sorte toda não poderia ser pra sempre. a vaga que eu ocupo aqui na verdade é temporária: uma das 3 gurias foi pra europa em janeiro fazer um intercâmbio de 6 meses e eu só vou morar no quarto dela até ela voltar. isso significa que no final de junho começa novamente a busca por um lar.

daí eu fico meio assim de trazer pra cá todas as coisas que eu gostaria - livros, quadros, porta-retratos, bibelôs, móveis - e personalizar tudo de vez. afinal, já se passaram quatro meses desde que eu estou aqui e ainda não consegui trazer todos meus bilongues nem furar a parede pra colocar meus quadros de gatinhos. acho que quando eu estiver plenamente adaptada e acomodada já vai ser quase hora de ir embora. melhor então eu manter o espírito nômade que adquiri graças ao CS (CouchSurfing, e não CounterStrike, n00b) e manter na mente a consciência de não acumular tralhas nem criar raízes, porque penso no trabalho que vai dar levar tudo isso de uma vez pra um terceiro lugar depois. por isso a cada vez que vejo que estou acumulando papéis ou lembranças inúteis jogo fora ou separo tudo pra levar pra Santos. e cada vez que separo coisas de lá pra trazer pra cá - aos poucos, porque é impossível carregar muita coisa de ônibus urbano e ninguém tem dinheiro pra ficar andando de táxi - eu penso e repenso diversas vezes se realmente vou precisar disso na minha casa nova.

nova que já tá ficando velha, porque o tempo que me resta aqui é menor do que o tempo que eu já passei. isso é mindblowing, porque parece que me mudei ontem.

só me resta tirar o máximo proveito dessa experiência e aproveitar cada dia como se fosse o útimo.

depois de morar na maior e mais infame metrópole do brasil, nunca mais vou achar o trânsito de outra cidade engarrafado. nunca mais vou achar seus habitantes mal-educados demais, suas distâncias distantes demais ou seu céu cinza demais. mas vou sentir falta da diversidade de opções pra sair à noite, da diversidade de culturas e de entretenimento que se pode encontrar aqui, das pessoas que conheci no trabalho e no CS, das melhores e mais badaladas casas de forró do estado com os melhores professores de dança a menos de 30 minutos da minha casa, e de morar ao lado da melhor universidade do país e poder assistir sem compromisso às aulas do melhor professor do curso de comunicação que eu já vi.

apesar de odiar São Paulo e a rotina maçante, vou morrer de saudades das pequenas coisas que tornam minha vida aqui suportável.

mesmo assim, insisto em dizer: Rio, me aguarde, que ainda vou colecionar muitas pequenas e grandes coisas para guardar de memória da vida que ainda vou ter aí.

Um comentário:

RPMN disse...

OK dude. If you need help moving out just give me a call. I've got a car you know?
As for the rest it is just the rest.
We are what we are, not the place where we live.
And as I said before "We are the ones who like, we choose what to like and wherever we are there's always something or someone that will help us grow as individuals, improving our very minds and souls.