domingo, 4 de agosto de 2013

voltar para a redoma é fácil e arriscado.
o risco é de não querer sair nunca mais de lá.
e o pior é que tem redomas que acompanham.

quinta-feira, 5 de julho de 2012


Antigamente eu afirmava, como dizia Tom Jobim: "eu não moro no Rio, eu namoro o Rio".

Hoje eu moro no Rio e passo maior parte do meu tempo livre em São Paulo do que aqui. Por quê?

Porque Sampa é, como diria Drummond, aquela pedra no meio do caminho - que atrapalha nossos planos e confunde nossas certezas. Nos tira do nosso rumo. Ou, ainda, aquela pedrinha bonita que a gente pegou na estrada da nossa vida pra guardar de lembrança e, como não cabia na mala, enfiou no sapato pra não perder. E, apesar de atrapalhar a caminhada, não queremos jogar fora, porque nos traz boas lembranças.

Demorei tanto tempo pra sair de Santos, a cidade de Vicente de Carvalho e Martins Fontes, que antes pretendendo ir direto para a terra do samba, da bossa e do funk, acabei tropeçando pelo caminho e me perdendo em São Paulo, me embrenhando no forró pé-de-serra de Pinheiros, embalada pelas melodias dos cancioneiros nordestinos e pelos braços dos forrozeiros, que me arrebataram como uma águia e fizeram muitas coisas acontecerem no meu coração.

Mas agora é chegada a hora de, mais uma vez, deixar para trás certas certezas, porque o futuro pode até esperar, mas o presente já se vai e eu não quero perdê-lo outra vez.

Passar a vida num lugar sonhando estar em outro? Não é isso o que quero fazer para o resto da minha vida.

Quero, sim, conhecer o mundo inteiro, mas sem jamais me esquecer da frase que li uma vez na camiseta de um viajante: "o melhor lugar do mundo é onde a gente está".

Enquanto estive em São Paulo, cidade de que nunca um dia pensei gostar e muito menos morar, sentia saudade de Santos. Quando me acostumei e realmente comecei a gostar de São Paulo, o Rio literalmente me convocou a vir para cá - e eu já quase não queria mais vir. Agora que moro aqui, sinto saudade de Sampa. Mas até quando será que vou ficar aqui? E quando outra terra, seja Vitória, BH, Bahia ou ainda mais longe, também me convocar? Sim, irei, mas não quero deixar o Rio com a sensação de que não o aproveitei o suficiente por não estar 100% presente. Não quero me acostumar com o Rio só quando já estiver chegando perto da hora de ir embora. Não quero mais ficar voltando atrás nem fazer contagem regressiva para tudo, como se a felicidade estivesse sempre um passo à frente ou no passado, e nunca aqui comigo, onde estou.

Um ano já se foi desde que cheguei, e ainda não sinto que vivi essa cidade em todo o seu potencial. Não encontrei muitos dos amigos cariocas que conheci pelas minhas andanças por esse país, inclusive alguns que me ajudaram a chegar até aqui. Não aprendi a dançar gafieira. Não fiz nenhuma trilha na floresta da Tijuca. Tudo porque o trabalho e o estudo tomam todo meu tempo, e os fins de semana são integralmente destinados a viagens a Santos e Sampa.

Por isso, a partir de agora, renego minha saudade de São Paulo - e também de Santos, que eu antes já tinha superado mas de vez em quando ainda volta -, de toda a família que me espera, de todos os amigos que cultivei por lá, de todos os amores, todas as lembranças; sem esquecer nunca as amizades e os aprendizados - renego apenas a saudade, sentimento que nos prende ao que passou e melancoliza nosso dia-a-dia, impedindo-nos de enxergar e aproveitar oportunidades de novas experiências. A partir de agora, eu quero Rio de Janeiro em primeiro lugar na minha agenda.

O forró continua na minha vida, os amores, os amigos... para sempre - apenas não tão fisicamente. Não geograficamente. Não espacial-temporalmente. Não com tanta freqüência. A única coisa que continua em mim é o aqui e o agora.

Rio de Janeiro, estou pronta afinal para firmar contigo aquele compromisso prometido pela frase de Jobim e me aconchegar de uma vez em seus braços, que me esperaram abertos durante todo esse tempo.

E que venha o samba!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

hoje eu entendi por que escolhi fazer faculdade de Dança.

sou uma pessoa que sempre gostou de muitas áreas do conhecimento, e nunca consegui escolher só uma delas para seguir: exatas, humanas, biológicas...

sempre quis fazer de tudo um pouco, mas nunca tive disposição pra fazer coisa alguma até o final.

gosto de música, esporte, ciência, arte, literatura, misticismo, folclore, saúde, natureza, comunicação...

como escolher um só curso, focar num assunto específico e deixar todas as outras áreas de lado? eu queria fazer todos.

e as pessoas me diziam: "você precisa escolher um só! você precisa se especializar! você não pode querer abraçar o mundo!"

cinco anos depois de terminar o colegial, finalmente encontrei o curso perfeito, baseado numa atividade da qual nunca, jamais me canso, e que por acaso reúne todas as áreas do conhecimento que me interessam.

porque dança tem a ver com saúde, educação, esporte, ciência, comunicação, cultura, arte, música, história, fisioterapia, cinema, teatro, relações humanas, psicologia, sociologia, física, filosofia, antropologia... ufa!

e porque dançar é a única coisa que jamais tenho preguiça de fazer e aprender sobre.

finalmente rompi a barreira do ensino médio para cursar algo que eu tenho certeza absoluta que vai me abrir muitas portas e pelo qual não vou me sacrificar nem um pouco para não largar pela metade.

hoje estou aqui, abraçando o mundo :)



sexta-feira, 8 de julho de 2011

Senhor do Bonfim

no último dia da minha viagem pra Bahia, em agosto de 2010, amarrei duas fitinhas do Senhor do Bonfim no pulso esquerdo.

como não podia deixar de ser, dei três nós em cada uma e fiz pedidos... mas o curioso é que eu não tinha pedidos suficientes pra fazer.

eu estava tão feliz naquele momento que sentia que quase nada faltava na minha vida, e pra falar a verdade nem lembro o que acabei pedindo no final das contas.

só lembro de um pedido com certeza, que era entrar na faculdade. eu não sabia nem qual faculdade ou qual curso ia fazer, mas sabia que tinha que tomar vergonha na cara e fazer isso de uma vez por todas.

os outros pedidos, imagino que tenham sido: mudar de emprego, morar no Rio de Janeiro, aprender a dançar pra valer...

e cá estou eu, trabalhando na UFRJ e matriculada em Teoria da Dança.

só falta arrebentar as fitinhas :)




quarta-feira, 15 de junho de 2011

fases da vida

será que existe alguém que consegue ser 100% alguma coisa em 100% do tempo?

ser 100% crente ou 100% cético, ser o tempo todo revoltado ou o tempo todo conformado,
totalmente conservador ou totalmente liberal?
será que alguém passa a vida inteira fazendo planos ou a vida inteira vivendo o presente,
a vida inteira dentro de casa ou a vida inteira se aventurando pelo mundo,
a vida inteira sendo só nerd ou só selvagem, só disposto ou só preguiçoso,
ingênuo ou malandro, frustrado ou vitorioso?

eu não consigo.

não entendo quem consegue passar a vida inteirinha trabalhando e juntando dinheiro pra morrer infeliz e rico,
nem quem passa a vida inteira coçando o saco às custas dos outros.
não entendo quem trabalha mais de 2 anos com alguma coisa que não goste,
quem consegue passar a vida inteira fazendo o que os outros dizem,
nem quem se isola de tudo e não se relaciona com ninguém.
não entendo quem não consegue se dar o direito de relaxar e esquecer os problemas por um tempo,
nem quem consegue ser irresponsável o suficiente pra correr riscos sem calcular suas conseqüências, colocando a si mesmo em situações sem saída.
também não entendo quem acredita a vida inteirinha nas mesmas crenças sem nunca questioná-las,
quem defende uma única causa sem conhecer as outras,
quem só tem um ponto de vista e jamais tenta se colocar no lugar do outro.

já passei por muitas fases como essas e são elas que me ensinam a viver. mas não dá pra viver sempre do mesmo jeito.
já passei por fases reclusas e anti-sociais, por fases boêmias e aventureiras, por fases ativistas de internet, por fases alienadas sem assistir TV nem ler notícias. já fui desleixada e já fui caprichosa, já amei meu cabelo e já o odiei muito, já trabalhei em outra cidade tendo que dormir 4 horas por dia e já passei anos inteiros coçando o saco dormindo 12 horas por dia, já tive fobia social e o apelido de "mudinha" e já fui sociável a ponto de fazer amizade instantânea com dezenas de pessoas no mesmo dia.

já gostei de ler quadrinhos, romances, artigos científicos e revistas de fofoca. hoje gosto de ler coisas que me ajudem a moldar minha visão do mundo.

já passei pela fase de escrever, de desenhar, de dobrar, recortar, rasgar, sujar, amassar, pintar e bordar. agora quero fazer tudo isso com a minha vida.

já passei pela fase de experimentar várias coisas (e não me refiro a drogas) para ter noção do que existe e do que deve ser melhor para mim (apesar de que, certeza, mesmo, eu nunca vou ter). e vou continuar experimentando. já passei pela fase de me envolver com coisas erradas e também de ser superficial sem me envolver com nada, agora quero me envolver com a coisa certa.

já passei por várias fases e gosto muito da fase atual: disposta, batalhadora, vitoriosa, dançarina, caseira, viajante, carioca :)

muitas ainda estão por vir.


- Manuela Esquivel

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Sensibilidade

"Olho você e o vejo por dentro. Parece que conheço todos os seus pensamentos, que são mais emoções confusas do que idéias elaboradas. E então, só através da sensibilidade que desenvolvi com relação a você é que consigo decifrá-los. (...) Nós desenvolvemos nesse tempo nosso uma linguagem comum, uma comunicação sem palavras que nos ligou um ao outro dentro de um mundinho que só a nós pertence. Sabe como chamo isso? Amor."

- Cynthia Esquivel

terça-feira, 19 de abril de 2011

Encaixe Perfeito

De repente ela o viu, como um ponto fluorescente num fundo escuro, do outro lado da pista.

Depois de várias semanas de desencontros, lá estavam eles, no mesmo forró.

Indecisa sobre como devia cumprimentá-lo, ela decidiu por fazer imediatamente algo que, independente das conseqüências, não poderia ficar para depois. Atravessou o salão e foi-se chegando de mansinho, deixando-se ver e ser vista, olhos nos olhos através das várias camadas de casais chamegantes em rodopiante movimento; parou à frente dele com o rosto bem perto do seu, um sorriso contido, um olhar firme e discretamente desafiador e, antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, perguntou:

- Vamos dançar?

Ao que um sorriso iluminado e uma aproximação gestual quase que magnética responderam afirmativamente, à guisa de palavras.

Deram-se as mãos e encaminharam-se para o meio da pista, ambos provavelmente perguntando-se se o beijo do reencontro ia acontecer ou não; mas logo esqueceram essa questão, pois num fechar (sem abrir) de olhos os dois já estavam abraçados, os corpos colados balançando ao som de um baião chorado, não muito lento nem muito rápido...

E dançaram como nunca antes haviam dançado.


Os dois corpos pareciam um só deslizando pelo salão, girando, pulsando, contraindo-se e esticando-se, subindo e descendo no espaço como um pêndulo, separando-se e juntando-se novamente, acelerando e freando, marcando ora o tempo, ora o ritmo, ora o contratempo, traduzindo o som da música em tato, em sensação, em movimento, em imagem, em ação e em sentimento.

Os joelhos estavam entrelaçados, o peito colado, os braços de um envolvendo o corpo do outro, o direito dele pela cintura dela e o esquerdo dela pelos ombros dele, enquanto os outros dois braços, conectados pelas palmas das mãos e pelas pontas dos dedos, brincavam no ar e conduziam giros e caminhadas. As escápulas desenhavam "oitos" deitados no ar, os quadris encaixavam amortecendo os breques e as coxas em contato serviam de apoio recíproco.

E cada ação dele resultava numa reação dela, na mesma proporção: a resposta à condução era praticamente intuitiva, os movimentos eram como que telepaticamente sincronizados, e a cada passo as pernas moviam-se com a mesma amplitude e velocidade, como se estivessem amarradas umas nas outras por um inexplicável magnetismo, e cada troca de peso ou torção de tronco ou de quadril dele refletia nela, como se um fosse o espelho do outro, ou como se aquilo fosse automático, como se o corpo dela estivesse programado para fazê-lo sem pensar; e de fato, quanto menos ela pensava, mais a dança fluía. A resposta era imediata, a conexão era total e a sintonia, absoluta. Eles vibravam na mesma freqüência.

Mas nada ali, de certa forma, era realmente uma ação dele nem tampouco uma ação dela. Era como se a música falasse através deles, e eles apenas traduzissem a mensagem com o corpo. Era como se o casal de dançarinos na verdade não estivesse realmente ali, somente a dança. Eles eram a dança.

E era como se cada um dos dois, ao sentir a batida da música nos ouvidos e a pulsação do parceiro na pele, e ao parar de pensar e deixar a dança fluir, entrasse em profundo estado de meditação, em que nada é realmente feito, apenas deixado acontecer.

Os dois corpos juntos funcionavam como duas engrenagens de relógio antigo, encaixavam-se perfeitamente tal qual duas colheres de faqueiro de prata, assim como quando fora da pista de dança (e como separar o que é dança do que não é?), dentro de outras quatro paredes eles se abraçavam, se encaixavam, se enroscavam, se rolavam, se amavam...

E as têmporas estavam encostadas, os narizes assoprando de leve os ouvidos, e os olhos fechados e os lábios sorrindo.

Era o retrato do êxtase.


Em dado momento um giro solto aconteceu, um contratempo repicou nos quatro pés, o corpo dela girou 360° em sentido anti-horário, o lado esquerdo do corpo dele a acolheu com o braço envolvendo-a pela cintura, o braço direito dela o abraçou por cima dos ombros e, ao juntarem-se os corpos, os quatro braços fecharam o abraço sem mais se separar. Os pés continuaram marcando o tempo, num abrir e fechar horizontal de quadris que funcionavam como se fossem a principal articulação de um mesmo corpo, enquanto a mão esquerda da moça deslizava discretamente para a nuca do parceiro, cuja mão direita tocou o outro braço pendurado em seu ombro, de uma forma tão cândida que parecia dizer "pode ficar aí, eu deixo. Pra falar a verdade, até gosto". E começou a acariciá-lo com contida sofreguidão, ao que a mão na nuca dele retribuiu na mesma medida.

Nesse exato momento foi como se o tempo parasse. A dança ficou mais lenta, os passos mais curtos, o balanço mais discreto; os rostos já colados de lado começaram a virar um em direção ao outro, como se as bocas fossem pólos opostos de dois ímãs; sobrancelhas suadas acariciaram as têmporas, narizes e testas foram se encontrando, os lábios ficaram a milímetros de distância, os ombros contraíram-se como que querendo intensificar o contato dos corpos, respirações ficaram mais lentas, os corações latejavam de expectativa, e até os olhos, por alguns segundos, ousaram entreabrir-se e encarar-se por entre as pálpebras semicerradas, como que para checar a veracidade daquele momento.

Foi quando um pensamento dela se fez voz.

- Eu amo você...

Após uma pausa dramática (na conversa e na dança), ele perguntou:

- O que você disse?

Ao que ela, sem titubear, respondeu:

- ...Eu amo dançar com você.

terça-feira, 22 de março de 2011

o que significa Trabalho para você?

CURIOSIDADE: algo que você experimenta para ver se gosta.
HOBBY: algo que você faz por fazer, para passar o tempo com prazer.
VÍCIO: algo que você gosta tanto que faz compulsivamente, sem nem se dar conta.
PAIXÃO: algo a que você se dedica plena e conscientemente, sempre que possível.
FILOSOFIA/ESTILO DE VIDA: algo que você respira, em que pensa o tempo todo e que procura fazer da melhor forma possível, além de ser uma das prioridades da sua vida.

TRABALHO: algo com que você ocupa seu tempo a fim de ganhar dinheiro e poder sustentar seus vícios

ou

TRABALHO: algo que você faz a fim de disseminar sua filosofia, para que ela atinja mais pessoas e desperte nelas a mesma paixão?

Eu, particularmente, quero trabalhar algo que mude o mundo. Quero ser a energia que gera ondas, movimenta águas e muda a maré... e não apenas mais uma peça na antiquada engrenagem que mantém o mundo funcionando sempre do mesmo jeito.

Caderno de Esboços II, 04 de fevereiro de 2008

"O amor não é uma moeda de troca. O amor é um fim em si mesmo. E eu não preciso de alguém que me ame, preciso de alguém para amar. Não quero alguém que sofra por mim, quero alguém que eu possa fazer feliz.


Quero pensar nele 24h por dia e lisonjear-me com cada vez que ele se lembrar da minha existência. Quero dar-lhe jardins floridos inteiros e me emocionar com cada flor que ele me oferecer. Quero deleitar-me com cada bocado que ele saboreie dos meus pratos, demonstrando satisfação, e surpreender-me com cada rara vez que ele resolver me dar algo de comer na boca.


Quero massagear-lhe o corpo e a alma, desatar os nós de seu espírito, subir-lhe a auto-estima, comemorar suas conquistas, incentivar seu sucesso, enaltecer seus talentos, realizar seus sonhos, mudar sua vida.


Eu me deliciaria com cada sorriso dele, me comoveria com cada gesto de carinho e me embeveceria com cada vez que meu nome saísse de sua boca.


Deixar-me amá-lo é a maior retribuição que ele poderia me dar."

legados dos meus pais

meu pai me ensinou a economizar,
minha mãe me ensinou desapego material.

meu pai me ensinou a ser comedida,
minha mãe, a dizer o que eu penso.

meu pai me ensinou cordialidade,
minha mãe, irreverência.

meu pai me ensinou discrição,
minha mãe, exuberância.

meu pai me ensinou diplomacia,
minha mãe, a "rodar a baiana".

meu pai me ensinou a raspar o prato,
minha mãe, a comer com prazer.

meu pai me ensinou a reverenciar o passado e planejar o futuro,
minha mãe me ensinou a desfrutar o presente.

meu pai me ensinou a ser racional,
minha mãe, a demonstrar emoções.

meu pai me ensinou os padrões sociais,
minha mãe me ensinou a quebrá-los.

meu pai me ensinou a seguir as regras,
minha mãe me ensinou a ser a exceção.

meu pai me ensinou a dar valor às partes,
minha mãe, a observar o todo.

meu pai me ensinou a fugir dos riscos,
minha mãe, a correr riscos calculados.

meu pai me ensinou a conviver bem com os outros,
minha mãe, a viver bem comigo mesma (e apesar dos outros).

meu pai me ensinou a cultivar amizades,
minha mãe me ensinou a escolhê-las.

meu pai me ensinou a evitar o mal,
minha mãe, a não se deixar abater por ele.

meu pai me ensinou a ter medos,
minha mãe me ensinou a vencê-los.

graças aos dois, sou uma pessoa completa.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

como assim, você não dança?

como assim, você não dança?

então você não sabe como é bom rodopiar pelo salão ao som de um belo dum samba, um tango ou um baiãozinho matuto?

você não conhece a sensação inefável de conduzir uma leve e hábil dama para onde você bem entender, ou se entregar à condução de um envolvente e decidido cavalheiro?

você não fica com os pés coçando pra mexer o corpo quando ouve aquele ritmo que acelera teu coração e deixa os sentidos à flor da pele? não sabe como é bom fechar os olhos e deixar a música falar através do seu corpo, deixar a dança acontecer, sem pensar muito?

não sabe como é estar num eixo compartilhado com outra pessoa e se sentir o centro do universo - em sintonia com ela? não acha o máximo estar em equilíbrio de contrapeso com alguém numa posição absurda do tipo "na meia ponta de um pé só com o corpo torcido" - e sentir o êxtase que dura poucos segundos antes do desequilíbrio acontecer?

não acha uma delícia sentir seu corpo ser esticado, catapultado e chicoteado como um pano de seda ao vento, ou girar em torno de alguém como os astros em movimento de translação? não sabe como é ser arremessado ou arremessar alguém de um lado para o outro, provocando exclamações e interjeições de surpresa e emoção? não se sente num carrossel, numa montanha russa, num parque de diversões, numa cena de filme ao ver o salão girando ao seu redor com uma bela trilha sonora de fundo? não se sente que nem criança abraçando um padrinho querido quando é acolhido pelos braços do seu parceiro?

você não se orgulha da camisa suada depois da balada - sinal de que dançou o suficiente para a noite valer a pena?

não dança mentalmente no ponto de ônibus ou na calçada enquanto espera para atravessar a rua?
não treina passos em casa com vassouras, cadeiras, jaquetas e portas de armário ou mesmo com um parceiro imaginário?
não faz analogias da vida e das relações humanas com a dança e o jogo de casal?
ao conhecer alguém interessante, não se pergunta "será que ele(a) sabe dançar"?
não vai dormir, não sonha nem acorda com enredos musicais e coreografias na cabeça?
não se sente mais poderoso e motivado ao descobrir os movimentos de que seu corpo é capaz e ter novos desafios para vencer a cada dia?

é, acho que disso que eu tô falando só entende mesmo quem dança.
porque quem dança tem outras preocupações na vida que não parecer ser o que não é.
quem dança se expressa melhor, não caminha sem leveza, vê poesia até no desequilíbrio, vê contratempo até em pulo de gato e tropeção.
quem dança não experimenta uma roupa sem antes dançar no espelho só pra ver se ela não atrapalha os movimentos naturais do corpo.

quem dança escolhe sapatos não pela estética, mas pelo conforto e quociente de antiderrapância.
quem dança tem consciência corporal e agradece todos os dias por ter todos os membros no lugar... e quando não os tem, dança assim mesmo.
quem dança dá risada quando erra e se diverte quando está aprendendo, mas depois que aprende não zomba de quem sabe menos.
quem dança não sofre por amor; só sofre quando não pode dançar ou quando não dança bem.
quem dança todas as noites nunca tem uma noite sem prazer.

que me perdoem os que têm outras paixões, mas quem dança é muito mais feliz. disso eu tenho certeza.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Você é quieto e estável
feito uma piscina.
Eu quero agitar
a sua água cristalina,
eu quero mergulhar
e criar ondas em você,
eu quero transformar
sua maneira de viver.

Já eu sou flutuante
feito um barco à deriva
e você é o norte
que me orienta e guia.
Você é minha âncora,
as raízes do meu ser;
você é terra firme,
me dá forças pra crescer.


Manuela Esquivel

A dança é a arte de fazer poesia com o corpo.

Na dança a dois, a mulher tem que ouvir a música através do homem.

É como se o homem fosse um transformador de estímulos sensoriais: ele transforma energia sonora, que é um estímulo auditivo, em condução, que é um estímulo tátil, causando o movimento - energia cinética - da mulher, de forma que ela represente visualmente a música.

Três dos sentidos são usados nesse processo, mas às vezes a intuição também ajuda ;)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Perfil 2010

ano novo, perfil novo. vou atualizar as quotes do meu about do orkut e salvar aqui o atual (porque eu gosto de mudar mas sempre guardo as memórias daquilo que passou):

cansei de ser alienada e resolvi conhecer um pouco de tudo.
daí cansei de tudo e resolvi conhecer mesmo só o que era bom.

cansei de ser eclética. virei forrozeira.
cansei de ser democrática, virei anarquista.
cansei de ser sexy, virei maloqueira.
cansei de ser nerd, virei andarilha.

cansei de ser bicho-do-mato, virei sociável. daí cansei de socializar e virei sociável com restrições (do tipo que puxa coro e oferece brinde mas sai à francesa).

cansei de gente fútil e virei seletiva. daí cansei de selecionar e passei a ser mais tolerante e menos preconceituosa.

cansei de ser igual aos padrões e resolvi ser diferente. daí cansei do padrão de tentar ser diferente e resolvi ser eu mesma (mas não sempre a mesma, ai que clichê).

cansei de ser ingênua e resolvi dar uma de mineiro (malandro porém discreto). mas daí cansei de ser dissimulada - quero ser autêntica e gritar aos quatro cantos todas emoções que sentir. e foda-se se eu for sofrer depois.

ah, cansei de procurar alguém pra 'me completar' e resolvi me bastar (mimimi sou auto-suficiente mimimi). daí cansei de ser egocêntrica e metida a bem-resolvida e resolvi procurar alguém com quem... compartilhar.

afinal, todo mundo tem algo de bom a compartilhar. e 'happiness is only meaningful when shared' (into the wild), não é ?

ah, continuo sendo: bairrista, clubista, saudosista, santista. e legionária.
com os olhos abertos, mais curiosos e atentos do que nunca.

http://meadiciona.com/manuelaesquivel



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"Não há dinheiro mais bem aplicado que o investido em uma viagem de lazer. Acordar e ver um teto diferente é um prazer." - Verônica Farias

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"Veja o que dá mais ibope na tevê, os times com mais torcida e o tipo de música que vende mais... Por isso eu sou santista..." - Odir Cunha

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Cada vez que eu viajo, vejo que não tem dinheiro mais bem gasto.
E que esse Brasilzão é lindo, diverso e surpreendente demais. Se eu posso dar um conselho, dou esse: conheçam verdadeiramente esse país.

E em cada cantinho, provem da comida, ouçam da música, entendam da fé, mergulhem nas águas, se deixem embalar pelo sotaque e retribuam os sorrisos gratuitos (eles vêm aos montes).

Acho que quem critica tudo ao redor ou é bairrista demais, nunca foi verdadeiramente pra muito longe. E se foi...devia estar de olhos fechados.

:)


(Lívia Lins)


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É fácil encontrar quem fale de flores, dias de sol, praia; reconheço a beleza disso e também posso me animar com essas coisas. Mas o que eu não suporto é o menosprezo que se faz da chuva. Mal cai a água, e temos gente correndo, caretas, reclamações. Certo, há horas inoportunas para se chover mas, e daí? A própria vida é assim. Não escolhemos todos os momentos dela, que pode ser tão imprevisível quanto o tempo.

(Raul Franklin)

domingo, 26 de dezembro de 2010

homefeelings

(rascunho escrito originalmente em 06/12/10)


Eu cheguei à conclusão que o único momento em que eu realmente me sinto em casa é quando estou viajando.

Quando viajo, eu nunca estou sob pressão. Nunca estou com pressa. E nunca sei exatamente para onde estou indo. Posso até ter um destino final, mas não tenho certeza do caminho que vou fazer.

Quando viajo eu olho mais ao redor, converso mais com os desconhecidos, observo o mundo com mais atenção. Eu aprendo muito mais do que fazendo o meu percurso diário e repetitivo - e às vezes descubro caminhos que nem mesmo os nativos conhecem.

Quando viajo, eu sou mais cara-de-pau, mais espontânea, mais desinibida. Tomo iniciativas e faço coisas que não faria quando estou no meu mundinho conhecido e seguro. Eu danço ouvindo música no mp3, eu paro para olhar coisas que me chamam a atenção, tiro foto de coisas que ninguém nunca pensou em tirar, sem vergonha do que os outros vão pensar.

Quando viajo, eu sou eu mesma.
E descobri que eu adoro o meu próprio jeito de ser.

Sem contar a sensação de sair da mesmice que a viagem em si proporciona.
Toda viagem tem altos e baixos, com momentos de tédio e picos de emoções que podem ser boas ou ruins. Toda viagem tem momentos de esforço, momentos de espera, momentos de curtição e momentos de descanso.

Momento de esforço é pegar ônibus lotado carregando mochilão de 30kg em horário de pico. Momento de espera é dormir toda torta durante 5h abraçada na mochila na rodoviária/ aeroporto esperando o ônibus/conexão aérea pra próxima cidade. Momento de curtição é andar pelo centro ou pela orla da praia da cidade em que estou; sem pressa, sem lenço e sem documento, enquanto tiro fotos de tudo o que vejo, ouço sotaques diferentes, faço amizades ao acaso e saboreio iguarias da culinária local. Momento de descanso é quando afundo na cama quentinha ou no sofá do host, na rede da varanda ou na cama de casal com mosquiteiro da pousada depois de tomar banho e me alimentar, sabendo que estou em total segurança e finalmente posso dormir até acordar.

Já não me sinto mais em casa na casa dos meus pais - me sinto visita.
Também ainda não me sinto em casa em São Paulo - e não sei se algum dia vou me sentir.
Por outro lado tem algumas cidades que os nativos são tão hospitaleiros que conseguem me fazer sentir em casa na casa deles. Da até vontade de mudar pra lá só pra sermos vizinhos.

Agora quando estou sozinha, livre, com uma mochila nas costas, saúde em ordem e o direito de ir e vir para onde bem entender, me sinto absolutamente dona do mundo.

Forró

(rascunho escrito originalmente em 30/11/10)


Eu sempre falei que jamais substituiria meus amigos e as coisas que eu gosto de fazer por uma paixão, ou seja, por um namorado ou algo que o valha.

Mas acho que eu estou namorando com o forró.

Há tempos não saio com os amigos "da vida real" pra beber e jogar conversa fora, nem procuro conhecer gente nova pra socializar (a não ser no próprio forró), nem vou mais em shows de bandas que eu curtia, nem visito meus pais em Santos nos finais-de-semana. Parei de ir nos encontros e festas do CS, de acompanhar futebol (mesmo com o Santos indo tão bem), de assistir TV, de usar internet... desencanei até da vida afetiva e dos homens em geral (a não ser, recentemente, um ou outro que por acaso sabem dançar).

É como se todas essas coisas a que antes eu dava tanta importância fossem, na verdade, as diversas maneiras que eu tinha de preencher meu tempo com algo que me desse prazer... mas agora encontrei algo que parece superar tudo isso.

A única coisa que sempre fiz e ainda faço com gosto e não abro mão é viajar - mas agora sempre acabo dando um jeito de dançar um forrozinho nas cidades que visito. Aliás, minha viagem pro Nordeste teria sido muito menos proveitosa se eu tivesse ido pra lá antes de virar forrozeira. Daí posso dizer que já dancei forró em festas random e/ou visitei casas de forró no Rio, em BH, Vitória, Itaúnas, Porto Seguro, Caraíva, Itacaré, Aracaju, Curitiba, Porto Alegre...

Aliás, tudo o que faço hoje em dia gira em torno da minha paixão:
Se quero aprender algum instrumento, é rabeca e zabumba.
Se quero cantar em público, é "Pisa na Fulô".
Se danço outro ritmo, é pra aprender alguma técnica pra aplicar no forró.
Se quero praticar algum esporte, que seja andar na corda, ou qualquer um que dê equilíbrio pra melhorar a dança.

Talvez, nesse mundo de coisas tão interessantes e cultura tão rica, a dança também seja substituída algum dia por alguma outra paixão, mas por enquanto, é com ela que eu estou encantada.

É que o forró é emocionante demais.
E emoções são a razão de viver, não é?

Por exemplo, quinta passada eu fui no show do Dominguinhos. Aliás, só no mundo do forró você consegue ir no show de um dos maiores nomes da música brasileira pagando apenas... 7 reais. (com carteira de estudante.) Chorei demais, debruçada no palco, ao vê-lo tocando seus xotes melodiosos junto com Flavinho Lima, Mestrinho, Fúba de Taperoá...

Outro dia desses teve também um encontro de rabequeiros (ENCONTRO DE RABEQUEIROS, sim, isso existe!) no Teatro Oficina, na Lapa. Que que foi aquela gente dançando maracatu, meu Deus? E a roda de coco improvisada em pleno Buena Vista (balada chique de dança de salão na Vila Olímpia que toca forró às segundas)? Cultura brasileira é tudo.

Pois é, estou apaixonada pela música nordestina, em especial esse conjunto de ritmos (xote, baião, xaxado, coco, etc) que chamamos de forró. E pelo samba também, ainda mais do que já era -samba de gafieira carioca e samba-rock paulistano, adoro os dois, mas ainda não consegui aprender a dançar nem um nem outro direito. É que eu tô morando tão pertinho do forró, e tem tanto forró bom, de raiz, tradicional onde eu moro (Pinheiros tem os risca-faca também, mas esses eu passo longe), que não sobra nenhum dia na semana pra aprender outro ritmo - eu só danço forró, todos os dias, da hora que acordo até a hora que vou deitar, e se bobear ainda sonho com isso. Acordo com músicas da balada da noite anterior na cabeça, e às vezes algumas que eu nem mesmo sabia que conhecia. É sério, pareço uma doente.

Meu professor Evandro Paz costuma dizer, ao propagandear suas aulas, coisas como "eu vendo um vício benigno que transforma as pessoas" e "meu desejo é que um maior número de pessoas possam sentir em seus corpos um pouco dessa sensação de poder e liberdade moral que o domínio próprio corpo propicia".

Pois tudo começou por causa desse bendito professor. Foi em setembro de 2009 quando, graças a um tópico do Léo no CouchSurfing, e também pela sorte que tive de o meu trampo por acaso ser perto do Remelexo (e confesso que escolhi morar em Pinheiros muito mais pelo Remelexo do que pelo CRN), acabei descobrindo e me viciando no forró. É ele que, hoje em dia, assim como o CS e as viagens, me põe em contato com pessoas incríveis que eu jamais imaginaria conhecer, e me causa sensações que jamais pensei que pudesse sentir. Não é por dançar com x ou com y, mas sim por dançar. Pura e simplesmente. É como amar o amor em si (metalinguagem), e não somente amar a pessoa x ou y. Não sei explicar melhor que isso.

A Ju (CS RJ) me falou uma vez: "Seus olhos brilham quando você fala de forró. Até sua voz muda de tom. Você parece apaixonada".

Taí alguém que me entende.
É isso, é paixão. Não tem outra explicação.

Solidão e Solitude

rascunho escrito originalmente em 20/05/10


Solidão.

Nunca escrevi sobre isso antes. Sempre fui metida a auto-suficiente (talvez devido à criação meio feminista dada pela minha mãe).

Bem, vamos lá:

Passo o dia rodeada de pessoas, algumas até que me admiram e apreciam, mas não tem um dia que eu coloque a cabeça no travesseiro e não sinta falta de algo quente em que me aconchegar.

Sinto falta de calor humano. Não me basta mais ir em festas onde todos podem se conhecer sem preconceitos, se pegar, mas no fundo cada um só quer saber de si.

São Paulo.

Aridez, individualismo, falta de familiaridade.

Sinto falta de lares. Aqui todos moram sozinhos ou dividindo, nunca juntos.
Sinto falta das ruas em que eu conheça cada esquina, cada detalhe, cada ladrilho do chão; ruas em que eu sei que mora algum conhecido ou em que eu corra o risco de trombar ex-colegas. Sinto falta de estar perto de tudo a pé.

Mas o que eu sinto mais falta mesmo é de calor. Não aquele que nos faz torrar ao sol ou transpirar no ônibus lotado, mas aquele que nos faz ter vontade de ir pra cama mais cedo. Que torna as coisas mais aconchegantes, que nos tira a vontade de sair de casa, quando nossa única intenção ao sair seria encontrar alguém que nos faça sentir esse calor.

Do calor dos meus gatos amassando as cobertas da cama. Ronronando, soltando pêlos e me dando carinho. Como eu queria um aqui pra pegar no colo e encher de beijos.
Ou um gato, que já tive vários, ou um cachorro, que eu ainda nunca tive.
Ou uma pessoa, por que não?

Eu sou meio maluca, né? Uma hora quero virar hippie, viajar de carona sem dinheiro, conhecer o mundo inteiro. Outra hora quero ter uma casa só minha pra poder criar meu próprio cachorro, receber meus próprios amigos e cuidar do meu próprio jardim. Outra hora quero aprender todas as línguas, todas as técnicas e todos os ofícios que existem e virar uma supercientista. Outra hora eu quero ter uma profissão que ajude a mudar o mundo. E por aí vai.

Sempre fui uma pessoa que gosta de ficar sozinha. Isso significa que gosto muito da minha própria companhia. Li uma vez que "todo chato odeia esperar pois se vê obrigado a passar um tempo consigo mesmo". Já eu lido super bem com esperas longas, viagens demoradas, momentos intermináveis de ócio...

Isso eu chamo de solitude. É curtir o momento a sós consigo mesmo.
Mas às vezes eu também sinto solidão. É outra coisa completamente diferente: é querer compartilhar esse momento pleno de si mesmo com outra pessoa.

Talvez seja só uma fase, mas o fato é que eu quero uma companhia. Não alguém pra cuidar de mim, pelo contrário, eu quero viver pra alguém. Ter alguém pra cuidar, alguém com quem me preocupar, alguém que eu possa fazer feliz sem medo de invadir seu espaço. Alguém pra dividir comigo essa casa e fazer dela um lar. Alguém pra se importar se o lençol está ou não esticado e se nós temos ou não algo bom pra comer de manhã ou algum filme legal pra assistir. Ou simplesmente pra ficar jogado comigo na rede da varanda olhando os... aviões? (é, porque ver estrelas no céu de são paulo é meio difícil, né).

Isso também faz falta por motivos práticos. Por exemplo: eu deixo de arrumar o quarto por dias porque eu sei que ninguém vai vê-lo bagunçado, mesmo.
Só arrumo quando alguém vem me visitar, é mole ?
(Preciso receber mais visitas, lol).

Mas eu queria mesmo alguém que me visitasse constantemente.

Alguém pra quem eu tivesse ao menos um dia e um horário reservado na minha agenda, um cantinho da casa pra dizer "senta aqui, fica à vontade".
Alguém que eu pudesse conhecer bem, confiar muito e com quem eu pudesse compartilhar minha vida.
Não que ela seja a vida mais interessante do mundo, mas talvez meus sonhos sejam.
(Bom, pelo menos eu acho meus próprios sonhos interessantes).

Será que existe alguém que tenha sonhos parecidos com os meus ?
E se os nossos sonhos forem completamente diferentes, será que seríamos pessoas tão incompatíveis assim ?

Namoro

rascunho escrito originalmente em 12/07/09


Acho que começo a compreender o significado da palavra "namoro".
O namoro, ao mesmo tempo que se basta, tambem é um meio para um fim maior.
O namoro não é "só" um passatempo, não é "só" coisa de momento (não que essas coisas sejam insignificantes), mas também não é definitivo.
É o caminho florido por onde a gente passa antes de chegar ao destino. E às vezes o caminho é que é o mais importante da viagem.

Namorar é ter certeza absoluta daquilo que queremos neste exato momento, sem se importar com o que vamos querer depois.
Tem gente que acha que, se alguém tá namorando, é porque um dia vai casar e, se não casar, "que pena, não deu certo". Pra que namorar alguém se não ao menos acreditar que vai ser pra sempre? Pois eu acho que, pelo contrário, namorar é viver o momento. É estar aqui e agora, e não no futuro ou no passado. Senão, eu também poderia perguntar: pra que serve nascer, se todos vão morrer um dia? Não é?

Mas eu mesma nunca namorei. Quer dizer, não nesse sentido em que as pessoas falam. Porque namorar, pra mim, no sentido mais puro da palavra, não é necessariamente ter compromisso com alguém. Namorar, na verdade, é experimentar, é fazer um teste. É quando algo nos atiça e então a gente morde a isca e é fisgado, sem saber onde o anzol vai nos levar. É curtir o momento saciando nossos sentimentos mais urgentes, que tanto podem se intensificar com o tempo como podem diminuir ou acabar ao se conhecer mais profundamente o outro e se ver que não era bem isso que se queria.

Sabe quando a gente namora um vestido ou um doce na vitrine, antes de experimentar para ver se é mesmo bom? Namorar é isso. É ensaiar um passo de dança, uma cena de teatro ou uma canção no microfone pensando em um dia se apresentar, sem saber ao certo quando isso vai acontecer. É planejar uma viagem nos mínimos detalhes antes de pôr o pé na estrada. É degustar um pedacinho de queijo minas com vários tipos diferentes de doce de leite no mercado central antes de decidir qual deles vai comprar.
Tudo isso é namorar. E isso, graças a Deus, eu faço o tempo todo. E é bom demais.

E namorar uma pessoa? Namorar uma pessoa é se entregar a todas as sensações que ela nos provoca, sem medo das conseqüências dessa entrega. É se encher de expectativas a respeito dela, fazer planos e tudo o mais, mas sem se apegar a eles e sem tentar forçar algo a acontecer exatamente como você espera depois. Tipo assim, o vestido da vitrine pode até ter ficado lindo quando você vestiu, mas se te aperta ou se é caro demais, paciência, deixa pra lá. O doce também pode ser finíssimo, mas se for doce demais, enjoa antes de você terminar de comer. Por outro lado, a viagem dos seus sonhos pode não sair exatamente como você planejou, mas pode te levar a outros caminhos antes inimagináveis e ainda mais interessantes, por que não?

Da mesma forma, eu posso namorar alguém sem nem mesmo saber se o nosso beijo encaixa ou não. Posso ficar olhando-o demoradamente todos os dias e aproveitar todos os momentos possíveis para fazer isso, ainda que isso lhe cause um certo embaraço. Posso imaginar e criar mil fantasias sobre como seria se a gente se encontrasse, se a gente saísse junto, se a gente se envolvesse e se ele também gostasse de mim. Posso criar artifícios pra me aproximar dele, suspirar olhando suas fotos no orkut, permitir que ele me inspire e que minha criatividade extravase em versos em papéis rasgados na mesa do escritório ou mesmo em crônicas como esta.

É, eu estou namorando alguém.
Ele só ainda não sabe disso.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Vocês querem saber por que é que eu gosto tanto de forró?

Porque eu gosto muito do amor.

Em nenhuma outra festa no mundo eu vejo tanto amor quanto eu vejo aqui.

Aqui o amor é mais do que liberado: ele é cultuado.

Tem gente que cultua o ódio, a ganância, a morte, a vingança, a tristeza, o rancor...

Aqui a gente só cultua o amor.

No forró a gente ama de verdade. Ama como a natureza ensina.

A gente ama quem tem vontade. E se não tiver vontade, ninguém te obriga.

Porque sentimento é assim, coisa de momento, como a vida.

Uma sucessão de pulsações, como os tempos de uma música - e como os nossos corações.

Bom mesmo é ficar bem juntinho, mas poder soltar quando quiser - e partir pra outra, seja homem ou mulher.

Quem aqui já dançou coladinho sabe como é bom poder dar e receber carinho.


_

Quem acha que forró é sacanagem, comece a prestar atenção nas letras.
Vai ver que algumas são recheadas da mais pura candura:


"Se o amor é tão bonito para quê segredo?
Não tenha medo, vamos ser feliz
Paixão, amar, querer, sorrir, prazer, tudo é você
Ah, venha que a sanfona tá rolando e a noite tá madrugando
Só você não percebeu
Venha que o forró ta se acabando todo mundo se amando
Só faltando tu e eu
A noite é linda, e com você mais ainda
Venha, temos que aproveitar
Que nada é mais gostoso que amar
Que balance e embalance e me ame e me canse
Que te faço gamar..."
(Mestre Zinho - Te Faço Gamar)

"Segura gente que a noite inteira
Essa brincadeira faz amanhecer o dia
E eu feliz porque era o que eu queria
Trazer a alegria e ver o povo festejar
Eu quero ver, quero ver, quero ver
O dia amanhecer e todo mundo se amar
Eu quero ver a minha melodia no bico de todo mundo assoviar
Eu quero ver meu bem cantando e me chamando pra dançar
Eu quero ver, quero ver, quero ver
O dia amanhecer e todo mundo se amar"
(Genival Lacerda - Minha Melodia)

"Queria ter uma coragem a mais
Pra te levar lá na casinha onde a gente namorou
E se lembrar de como é que se faz
E ao som desse belo xote é que a gente faz amor
Amor sem lampião, amor nós dois no chão
Amor tão inocente como não se vê mais não"
(Xote de Colo - Lembrança da Casinha)


quinta-feira, 10 de junho de 2010

Amor X Bebida

Amar é que nem se embebedar. Igualzinho. veja:

quando você tá sóbrio e entediado, pensa: "que merda de vida, vou encher a cara."
quando não tem um amor (nem tem mais o que fazer da vida), pensa: "que merda de vida, queria tanto ter alguém."

quando começa a beber, pensa: "QUE BELEEEEEEEZA ! hoje vou beber até cair."
quando se apaixona, pensa: "QUE BELEEEEEEEZA ! acho que encontrei alguém especial."

daí você toma um porre, pensa: "bleeeeeeeergh... que enjôo... nunca mais vou beber."
ou então toma um fora, e pensa: "buáááááááááá... que tristeza... nunca mais vou amar ninguém."

então se cura da ressaca, e pensa: "como é bom estar sóbrio! vou continuar assim por um bom tempo."
e depois que cola os pedaços do coração partido: "como é bom estar desapegado! vou continuar solteiro por um bom tempo."

começa a ir a festas sem beber: "como é bom me divertir sem precisar beber! eu já nem lembrava mais como era sair só pra dançar, conversar e dar risada de ver os bêbados fazendo merda. hahaha"
começa a ir a festas e não pegar ninguém: "como é bom me divertir sem precisar pegar ninguém! eu já nem lembrava mais como era sair só pra dançar, conversar e dar risada de ver os xavequeiros tomando foras. hahaha"

mas aí começa a se sentir isolado e anti-social demais: "que merda de vida, preciso voltar a encher a cara."
e aí começa a se sentir carente e sozinho demais: "que merda de vida, preciso achar alguém legal."

daí começa a beber de novo, e pensa: "não posso exagerar pra não passar mal no final... mas já sei meu limite e por enquanto tô bem."
ou então se apaixona de novo, e pensa: "não posso me entregar pra não me fuder no final... mas já sei como as coisas funcionam, estou calejado e não vou mais sofrer por amor."

mas no final, por mais que se ache o bonzão, você SEMPRE toma um porre. ou toma um fora.
e toma no cu.

e começa tudo outra vez.


- Manuela Esquivel

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Simples assim

Amor é uma coisa que a gente tem que escolher.
Se quer só dar ou só receber.
E tem escolher entre as coisas que a gente ama.
Escolher entre a carreira e o namorado.
Entre o namorado e os amigos.
Entre os amigos e a família.
Entre a família e a carreira.
Entre o que é bom para você ou para aqueles a quem você ama.
Às vezes, tem-se que escolher entre a esposa e a amante,
entre o passado e o presente,
entre a estabilidade e a aventura,
entre a razão e a emoção.
Às vezes a gente tem que escolher entre ter uma presença física ou espiritual.
E outras vezes a gente simplesmente não escolhe.
A gente ama, e pronto.
Mas não pode ter.
E pronto.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

reflexões de uma TPM

@você-sabe-quem:

Hoje eu descobri que o que mais me deixa feliz é ver você sorrindo.

A segunda coisa que mais me deixa feliz é quando você estabelece algum contato comigo, seja me fazendo um carinho, correspondendo aos meus ou simplesmente olhando no fundo dos meus olhos.

Mas o que mais me magoa é quando te toco e você não corresponde. Quando não consigo te atingir, não consigo estabelecer esse contato.

Não que eu duvide do seu amor or something, mas eu fico triste.

É que eu sei que você só fica assim, inatingível, quando está absorto nos seus problemas.

E essa tristeza que eu sinto é simplesmente por saber que você tem problemas capazes de tirar o seu sorriso do rosto. E mágoa por eu não poder fazer nada pra te ajudar a resolvê-los nem pra te deixar feliz.
E sentimento de culpa por saber que eu posso, de alguma forma, ser ou ter causado algum desses problemas (por mais que você diga que o mundo não gira ao meu redor).
E remorso por ter sido egoísta a ponto de me preocupar com meus próprios complexos pessoais enquanto você colocava algo muito maior e mais importante em jogo.
E um medo desesperador de você perder alguma dessas coisas que te fazem feliz e te dão razão de viver.
E um sentimento de impotência por não poder te proporcionar nenhuma delas nem te ajudar a reconquistar as suas.

Amo você como se não houvesse amanhã. Sinto-me errada quando espero, inconscientemente, qualquer atitude sua em troca - but I can't help it.

Não sinto ciúmes de você, só sinto inveja do tempo que os outros passam contigo. E da atenção que você dá a qualquer um que não seja eu.

Meu sentimento pode ser egoísta, mas meu amor - que não é um sentimento at all, mas um fluxo de inefável energia vital - é desapegado. Eu quero te ver feliz, sorrindo, realizado; que como eu já disse é o que há de mais importante para mim.

Mesmo que você não olhe mais nos meus olhos, nem aperte minha mão quando eu aperto a tua, nem observe e acompanhe todos os meus movimentos, nem pense em mim 24h por dia, nem fique me olhando por entre as fendas da parede.

Mesmo que não seja eu o motivo do seu riso, eu só quero te ver rindo de novo. Mesmo que eu não faça mais parte da sua felicidade, eu quero que você tenha uma vida completa.

Esqueça-me se for preciso, mas cuide de si mesmo e seja feliz. Pelo amor de todos os orixás.

Torço mais por você do que pela camisa do Santos.

Ass:. sua Manu.

sábado, 10 de abril de 2010

ressurgindo das cinzas

pouco mais de um ano depois, cá estou eu para atualizar esse blog.


ainda me considero caiçara, apesar de estar morando - e faço questão de escrever isso no gerúndio, porque essa cidade não é e nunca será minha casa - na Selva de Pedra, aka São Paulo.

é, depois de 10 meses subindo e descendo respectiva e contraditoriamente ao inferno e ao paraíso todos os dias da semana, finalmente tomei coragem e resolvi me mudar. é legal, porque nos fins de semana tem muita coisa pra fazer. nos dias de semana depois das 8 horas de ócio não-criativo no trampo também. ao menos eu não fico tão entediada nem passo 5 horas por dia num ônibus fretado tentando dormir o que não dormia em casa.

é, mais de um ano estou no mesmo emprego, coisa que achei que seria muito difícil de acontecer.
mas depois que me mudei para a única cidade (além de cubatão) onde eu já declarei em altos brados que J-A-M-A-I-S moraria, não duvido de mais nada.

o Rio de Janeiro continua sendo um sonho distante. distante, porém, apenas geograficamente, porque depois que conheci o CouchSurfing nenhum lugar é longe mais. e depois que voei de avião pela primeira vez (para Vitória-ES, a fim de passar o carnaval em Itaúnas) calculo a distância dos lugares pelo preço das passagens, já que o tempo que demoro a chegar em qualquer lugar de avião jamais será tão grande assim, considerando o tempo que estou acostumada a ficar sentada na frente de um computador ou de pé pendurada num ônibus.

aliás, uma curiosidade: quando eu morava em Santos, que pra mim é a melhor cidade do mundo para se viver, tinha calos nas mãos de tanto andar de bicicleta (aquele veículo que não tem vez em são paulo, assim como os pedestres). depois que fiquei um bom tempo sem pedalar, os calos sumiram. mas agora, depois de uns 4 meses morando em são paulo, eles voltaram, exatamente no mesmo lugar - apesar de eu não andar de bicicleta at all. explicação ? as curvas sinuosas do ônibus lotado que eu pego todos os dias que me obrigam a me agarrar às barras como se estivesse caindo de um precipício. às vezes não tem nem barra pra segurar, de tanta gente, e eu tenho que me segurar naquela que fica quase no teto. na ponta dos pés, óbvio. algo me diz que se hoje eu prestasse novamente o concurso dos correios passaria no teste físico da barra, já que ela ultimamente tem substituído melancolicamente o guidão daquele veículo que trafega tão ou mais rápido que a velocidade média dos carros em são paulo e que tanta endorfina libera no nosso corpo quando o utilizamos.

a república que eu arranjei pra morar - através do divino CouchSurfing, diga-se - é uma maravilha. na verdade não é uma república, não como eu imaginava que repúblicas de estudantes fossem, ou como eu já vi as que a minha irmã morou na época da faculdade. aqui é tão limpinho, tão tranqüilo, tão organizado, tão agradável... claro que só é assim porque minhas roomies são extremamente caprichosas, e a convivência com elas é ótima porque elas são tão doces e easy-going como só uma pessoa tão sortuda como eu seria capaz de encontrar :)

meu quarto é a coisa mais linda de meo deos. tem uma bicama, uma escrivaninha com vários armários, prateleiras e gaveteiros, um mural metálico na parede onde eu colo as tags dos meetings do CS e prendo com ímãs os bilhetinhos que meus guests e roomies eventualmente me deixam e um baita armário com mais espaço do que minhas roupas podem ocupar. trouxe vários bibelôs de gatinhos e bichinhos de pelúcia pra suprir a falta dos meus gatos, mas é claro que eu trouxe só o que era estritamente necessário da casa dos meus pais, ou seja, só as roupas que me servem, livros que ainda não li e cadernos que ainda têm páginas em branco para serem usadas, já que não quero herdar o impulso acumulador de tralhas-que-um-dia-podem-servir-para-alguma-coisa da minha mãe. claro que sou uma pessoa extremamente nostálgica e saudosista e guardo todos os bilhetinhos, cartas, passagens, desenhos, fotos, presentes e outras infinidades de coisas que me trazem lembranças, mas tudo isso ficou lá em santos, devidamente catalogado e estocado numa caixa em cima da minha estante de livros. nada carrego comigo para não fazer peso, mas quando volto ao lar - e santos sempre será meu verdadeiro lar - tenho a oportunidade de relembrar o passado desde a infância e o tanto que mudei e aprendi no decorrer desses quase 22 anos.

mas voltando à república: moro no Butantã, zona sudoeste de SP, a 40min de ônibus do trabalho (e os paulistanos juram que isso é 'perto') no 15° andar de um condomínio ao lado da Cidade Universitária e, portanto, repleto de repúblicas de estudantes. o mundo lá fora é uma tristeza, já que se trata de uma cidade em que não se vê o horizonte e o céu é sempre cinza, mas minha casa é tipo um oásis. pensei que gastar o dobro do que eu gastava com fretado só para ter um lugar fixo para dormir e tomar banho sem ter que carregar a casa nas costas que nem caramujo talvez não valesse muito a pena, mas é MUITO bom. quem me conhece sabe das crises de ódios mortais que eu tinha por causa do excesso de convivência com a minha mãe - apesar de amá-la mais do que tudo - e há quanto tempo eu desejava ter um lugar só meu, longe dos pais, onde os gatos - apesar de eu amá-los mais do que tudo - não empestiassem de dejetos e pêlos, onde eu pudesse levar quem quisesse, onde as minhas coisas permanecessem no devido lugar sem ninguém escondê-las ou jogá-las fora inadvertidamente, onde ninguém tomasse o último restinho de coca-cola que eu guardei para o café-da-manhã. claro que faz falta o ronronar dos gatinhos na hora de dormir, a companhia da minha mãe no café-da-manhã, a infra-estrutura de sempre ter em algum lugar da casa TUDO o que eu possa eventualmente precisar - desde alicates de cutícula, cosméticos, ferramentas, utensílios de cozinha e agulhas de costura até os temperos mais esdrúnxulos e os medicamentos mais versáteis - mas só o fato de não ter onde perder minhas coisas no meio dos rios de tralhas e papeladas que ocupam a superfície de 99% de chão e móveis e poder receber visitas sem ter que sair correndo pra limpar o banheiro e morrer de vergonha do cheiro que os gatos deixam na casa é muito bom.

hoje é um dia tranqüilo, sábado friorento e milagrosamente com todas as moradoras em casa, coisa raríssima. uma no computador escrevendo no blog e escutando Legião, outra no videogame (sim, agora temos um megadrive) com o namorado e outra no quarto provavelmente se maquiando ou estudando. me lembra o clima de quando eu era criança e passava um sábado qualquer em casa com minha irmã e as amigas dela, que ficavam horas conversando, ouvindo música e se arrumando pra sair. o cheiro de pasta de dente no banheiro, os cabelos molhados respingando por aí, o espelho embaçado. eu torcia pra elas não saírem nunca e continuarem me fazendo companhia. sinto-me nesse ambiente novamente. hoje o dia tá propício pra ficar em casa e quando eu fico em casa o tempo passa muito rápido - sinal que é bom ficar aqui.

mas como NADA nesse mundo é perfeito, é claro que essa sorte toda não poderia ser pra sempre. a vaga que eu ocupo aqui na verdade é temporária: uma das 3 gurias foi pra europa em janeiro fazer um intercâmbio de 6 meses e eu só vou morar no quarto dela até ela voltar. isso significa que no final de junho começa novamente a busca por um lar.

daí eu fico meio assim de trazer pra cá todas as coisas que eu gostaria - livros, quadros, porta-retratos, bibelôs, móveis - e personalizar tudo de vez. afinal, já se passaram quatro meses desde que eu estou aqui e ainda não consegui trazer todos meus bilongues nem furar a parede pra colocar meus quadros de gatinhos. acho que quando eu estiver plenamente adaptada e acomodada já vai ser quase hora de ir embora. melhor então eu manter o espírito nômade que adquiri graças ao CS (CouchSurfing, e não CounterStrike, n00b) e manter na mente a consciência de não acumular tralhas nem criar raízes, porque penso no trabalho que vai dar levar tudo isso de uma vez pra um terceiro lugar depois. por isso a cada vez que vejo que estou acumulando papéis ou lembranças inúteis jogo fora ou separo tudo pra levar pra Santos. e cada vez que separo coisas de lá pra trazer pra cá - aos poucos, porque é impossível carregar muita coisa de ônibus urbano e ninguém tem dinheiro pra ficar andando de táxi - eu penso e repenso diversas vezes se realmente vou precisar disso na minha casa nova.

nova que já tá ficando velha, porque o tempo que me resta aqui é menor do que o tempo que eu já passei. isso é mindblowing, porque parece que me mudei ontem.

só me resta tirar o máximo proveito dessa experiência e aproveitar cada dia como se fosse o útimo.

depois de morar na maior e mais infame metrópole do brasil, nunca mais vou achar o trânsito de outra cidade engarrafado. nunca mais vou achar seus habitantes mal-educados demais, suas distâncias distantes demais ou seu céu cinza demais. mas vou sentir falta da diversidade de opções pra sair à noite, da diversidade de culturas e de entretenimento que se pode encontrar aqui, das pessoas que conheci no trabalho e no CS, das melhores e mais badaladas casas de forró do estado com os melhores professores de dança a menos de 30 minutos da minha casa, e de morar ao lado da melhor universidade do país e poder assistir sem compromisso às aulas do melhor professor do curso de comunicação que eu já vi.

apesar de odiar São Paulo e a rotina maçante, vou morrer de saudades das pequenas coisas que tornam minha vida aqui suportável.

mesmo assim, insisto em dizer: Rio, me aguarde, que ainda vou colecionar muitas pequenas e grandes coisas para guardar de memória da vida que ainda vou ter aí.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Che Bella Cosa !

Hoje é um dia cremoso.
Dia 15, dia de adiantamento.

Retorno de feriado, dia de contar pro mundo inteiro
as aventuras que eu trouxe de lá do Rio de Janeiro.

Dia de zoar o chefe pelos 5x0 no Flamengo.
Dia de usar escondida, por baixo do casaco, uma camisa com o escudo do Santos no peito.

Dia de ver meu lindinho, "a única pessoa corada, com esse frio, nesse Conselho".
Dia de não conseguir - de novo - falar com ele, e ficar suspirando o dia inteiro.

Dia de preencher as linhas brancas desse caderno maneiro
e de me dar conta que, mesmo não querendo,
eu não sei mais escrever sem rimar desse jeito.

Dia de abrir a gaveta e achar minha carteira esquecida, cheia de dinheiro.
Dia de voltar a comer bem, fazendo um prato de salada tão colorido que só vendo.

Dia de perceber o privilégio que eu tenho
de ter sido convocada pra trabalhar nesse Conselho. :)

sábado, 4 de abril de 2009

um dia comum

4:05 o despertador toca, em cima da escrivaninha. eu inconscientemente levanto, desligo o aparelho e o trago para perto da cama.
4:20 ele toca de novo. eu não me dou conta e desligo novamente, dessa vez com menos esforço.
4:35 ele toca pela terceira vez.
4:50 eu me dou conta de que já é hora de levantar.
5:15 de banho tomado, viro o quarto de pernas para o ar à procura de uma roupa para vestir.
5:25 eu entro no elevador para descer. lá embaixo cumprimento o porteiro Renato que me diz "boa noite" enquanto eu digo "bom dia".
5:29 após andar 3 quadras, chego na esquina do canal 3 com a Governador e conheço o simpático rapaz que é meu companheiro de fretado. ele pergunta meu nome e se interessa sobre meu trabalho na capital.
5:30 subimos no ônibus. eu na segunda fileira, ele em algum lugar lá no fundo.
6:15 entra a última passageira, já em cubatão. o ônibus pega a estrada e eu posso finalmente dormir.
7:15 sou acordada pelas pessoas que começam a descer. ainda sem forças para abrir os olhos, preocupo-me em saber que horas são. abro uma fresta da cortina, sem conseguir identificar onde estou. vasculho a bolsa à procura do celular e sossego ao saber que ainda posso dormir uns 20 minutos.
7:20 acordo novamente, achando que já se passaram 20 minutos.
7:25 resolvo colocar o celular para despertar às 7:35 no modo vibratório, dentro do bolso.
7:40 o rapaz simpático passa por mim e desce do ônibus. descubro que ele não só mora do lado da minha casa como também trabalha na mesma avenida que eu.
7:42 o ônibus anda mais 4 quadras e me deixa na esquina da Faria Lima com a Rebouças.
7:43 atravesso o corredor de ônibus urbano e pego o cartão magnético para passar na catraca. ao entrar no edifício, cumprimento o segurança que é a cara do Kléber Pereira.
7:44 entro no elevador e olho para a pequena tv num canto da parede, que mostra notícias em frases de 5 segundos. torço para aparecer uma notícia sobre o Santos antes de chegar no 3° andar.
7:45 chego ao CRN-3 e cumprimento meus colegas, indo direto para a copa pegar um enorme copo de café preto. o Raphael do Cadastro está sentado no sofá da recepção lendo um livro sobre Psicologia e o Renato da Fiscalização está de barba feita. parece outra pessoa.
7:47 chega o louco do nutricionista fiscal Edson. grita "MANUUU MALUUUCA" e me abraça espalhafatosamente, falando sem parar, dizendo que eu não posso tomar aquilo tudo de café e quase me fazendo derrubá-lo.
7:50 chega o Thiago, colega da Fiscalização, vestindo roupa idêntica ao do meu xará Manoel, do Financeiro. este último, estudante de Matemática, faz as contas de quantas camisas cor creme cada um tem e comenta que "tecnicamente, essa coincidência deverá acontecer pelo menos uma vez por semana".
7:55 toca o celular do Renato. hora de passar o cartão de ponto.
7:59
mal chegamos no setor, o telefone da Fisc começa a tocar.
8:20 coloco uma pilha de processos com Termos de Visita vencidos e outra com Autos de Infração prontos na mesa da Dra. Lúcia.
8:25 a pilha dos TVs vencidos está de volta. começo a lançar os Termos de Notificação na planilha.
8:55 volta a pilha dos AIs já assinados para envelopar. a mesa está soterrada. não sei se continuo fazendo os TNs ou se termino logo os AIs.
9:12 os auxiliares do setor se mobilizam em busca de um processo perdido. o Lúcio me pergunta se está comigo. eu dou um ctrl+L na planilha para ver se fiz algum TN ou AI recentemente e respondo que não. ele insiste em procurar nos meus processos mesmo assim e o Renato diz que ele é muito "Rigorrosa".
9:47 alguém encontra o processo na caixa da Dra. Selma Britto.
9:53 o encarregado Alexandre, depois de um pequeno sermão sobre a importância dos encaminhamentos no sistema, diz que "Significa", enquanto come uma bala de goma.
10:12 minha colega técnica Elce lembra de alguma palavra ou frase da ex-estagiária Michely, como "ouxe", "esses bichinho" ou "beregodego". depois pergunta ao Alexandre "o que isso significa?"
11:44 o Renato pergunta "e aí, onde a gente vai almoçar hoje?". eu respondo que só almoço às 13h. ele reclama que já está ficando com fome.
11:59 toca o telefone da Elce. é a Carol da recepção chamando-a para almoçar. ela diz que já está indo, mas ainda demora vários minutos para sair.
12:30 o Renato pega sua marmita e vai pra copa desafiar as leis supremas do CRN-3.
13:10 a Elce volta. e eu fico com preguiça de sair pra almoçar.
13:15 vou pra copa beliscar um café com bolachas. encontro a Elke por lá e a chamo de Elce por engano.
13:20 sento numa das mesinhas da recepção e divido uma coca de 600ml com o Renato. as pessoas que passam perguntam se a gente está no bar.
13:30 o Renato volta pra Fisc e eu, sem ter o que fazer, volto também, sem deixar de anunciar que ainda estou em horário de almoço.
13:45 o Alexandre anuncia que está saindo para almoçar e se despede com um "Beijosmeliga".
14:15 volto à copa para passar novamente o cartão de ponto, como se estivesse voltando do almoço, e retorno ao trabalho.
15:00 o Alexandre, já de volta do almoço, desliga uma ligação de 15 minutos e fala de novo que "Significa". E o Renato fala algo com a palavra "Rigorrosa".
17:02 o relógio do Windows marca 17:08. estou entretida com meus relatórios quando a Elce fala: vamos, Manu? eu respondo "vamos" e começo a distribuir post-its pela mesa, para não esquecer de continuar o serviço onde parei no dia seguinte.
17:25 subo no mesmo ônibus que me trouxe à Selva de Pedra, desta vez rumo ao litoral.
17:35 consigo finalmente me ajeitar na poltrona com as 2 almofadas que trouxe de casa.
17:40 estou quase dormindo quando um dos coordenadores resolve ligar a TV. o filme, além de horrível, é dublado e, por isso, o som tem que ser alto, senão ninguém ouve. enfiando o travesseiro na cara, revolto-me ao lembrar que no dia anterior o filme era ótimo, legendado, eu estava sem sono... e o som estava quase mudo.
17:55 sou acordada por uma ridícula cena de "ação" barulhenta, com dinossauros de videogame rugindo autistamente para o ar enquanto pessoas correm e gritam. em português.
18:40 o filme acaba e o DVD fica repetindo a musiquinha da tela inicial em loop eterno. enfio o travesseiro nos ouvidos com mais força.
19:10 o ônibus sai de um túnel. as luzes se acendem e as pessoas começam a se enfileirar para descer. o sorridente porém pessimista senhor da poltrona 10 conversa sobre as chances do Santos no Paulistão com outros passageiros, enquanto espera o ônibus parar.
19:29 desço na esquina da Conselheiro com a Glicério.
19:42 chego no Positivus, faltando 18 minutos para acabar a primeira aula do Técnico em Meio Ambiente. a Maíra mal me vê chegar e me manda um bilhetinho com alguma fofoca.
20:05 o professor de Fundamentos e Processos Industriais continua lá. a aula é dupla.
20:45 o professor demora 40 minutos para ditar UM mísero exercício de matemática, enquanto faz comentários irreverentes sobre times de futebol. quando chega na letra "C", a Maíra solta orgulhosamente: "C de Corinthians Futebol Clube". eu me mato de rir e digo a ela que ela é uma santista enrustida e não sabe.
21:00 agradeço o sinal que nos libera para o intervalo, após ficar 1 hora escutando uma explicação que provava que "9,999999999 é quase a mesma coisa que 10".
21:00 como dois salgados de R$1,60 na cantina do tiozinho português. um deles é sem graça e o outro é delicioso. lambo os dedos de molho de pimenta.
21:10 não resisto e pego também uma coca e dois chocolates. estou ficando viciada em doces de novo? culpa daquela suculenta viagem a Minas Gerais.
21:11 volto para a sala onde o professor Fernando organiza um retroprojetor para mostrar fotos repugnantes de doenças provocadas por Protozoários. Comento com a Maíra que ele me lembra o professor Alexandre de Física, do segundo colegial do Objetivo, enquanto a aula dele nos lembra as aulas do Fogaça, de Microbiologia, do terceiro colegial.
22:45 o Fernando nos libera 25 minutos mais cedo, após uma aula dinâmica e cheia de conteúdo. volto para casa inspirada a conciliar as profissões de Bióloga e profissional de Letras/Tradução, assim como ele conseguiu fazer.
22:55 chego ao meu edifício, tentando não olhar para a destruição que fizeram no saudoso Praia Sport Bar. impossível não lembrar de todos os shows de rock que assisti ali e dos amigos que fiz.
23:45 depois de organizar mal e mal a roupa pra usar no dia seguinte, caço um gato para dormir comigo e deito na cama ao contrário, de forma a olhar a praia pela janela.
0:00 ainda não consegui dormir. penso em pegar um livro pra ler, mas mudo de idéia ao lembrar que depois vou ter que levantar pra apagar a luz.
0:15 mudo de posição e me pergunto se o cantor da churrascaria da esquina nunca vai mudar de repertório.
0:20 adormeço com o ronrono aconchegante da Praliné.
...
4:05 estou sonhando com a música "Cotidiano", do Chico Buarque, quando o despertador toca de novo. quando eu tiver um smartphone vou colocar essa música pra despertar.




pronto, agora vocês já sabem o que eu tenho feito da vida. :)